Crise, falta de emprego, desesperança, corrupção. Esse era o clima do Brasil em 1988, quando foi ao ar, pela primeira vez, a novela “Vale Tudo”, um dos grandes sucessos da Globo. Hoje, 30 anos depois e em sua terceira reprise (a segunda no canal Viva), a trama assinada por Gilberto Braga volta a ser líder de audiência, desta vez entre as TVs pagas, no horário da 0h30 à 1h20.

Para especialistas em televisão, o fato de abordar temas que continuam tão atuais no Brasil, como o desemprego e a falta de ética, é um dos motivos para explicar o interesse do público pela novela.
“Estamos em um tempo de questionamentos políticos e sociais, e ‘Vale Tudo’ faz uma reflexão sobre isso”, afirma Elmo Francfort, diretor do Instituto Memória da Mídia.

Ele destaca também que a trama marcou uma geração ao apresentar personagens icônicos, como a inesquecível vilã Odete Roitman –papel vivido pela atriz Beatriz Segall, que morreu no último dia 5. “Ela virou referência e ficou no imaginário do telespectador.”

Para a atriz Renata Sorrah, que fez a filha de Odete, a alcoólatra fragilizada Heleninha Roitman, ‘Vale Tudo’ é a melhor novela que já foi escrita na TV brasileira. “Ela soma uma série de pontos positivos, como discutir assuntos pertinentes ao público e que, infelizmente, continuam atuais, como a corrupção e a desonestidade. Ao mesmo tempo, procurava esclarecer e mostrar uma luz, uma saída.”

Índices econômicos apontam um cenário nacional ainda pior do que o daquela época. Em 1988, a média anual de desemprego era inferior a 5%. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) referentes ao segundo trimestre deste ano apontam agora índice de 12,4%.

“Vemos um país em que a corrupção toma conta, e a injustiça impera. Daí percebo que o momento atual repete o passado”, analisa o florista e decorador Roberto Rabello, 35, fã da trama. Para ele, outro destaque é a trilha sonora de abertura, com “Brasil”, de Cazuza, na voz de Gal Costa. “Ela já dá o tom do que veremos na TV. É uma novela que nos faz refletir sobre o país que queremos para o futuro.”

NOVELA ABORDOU TEMAS POLÊMICOS

No papel da frágil e problemática Heleninha Roitman, Renata Sorrah conta que teve um grande retorno do público. “Recebia muitas cartas de pessoas alcoólatras me agradecendo por tê-las ajudado. Elas contavam que procuraram o AA [Alcoólicos Anônimos] inspiradas na minha personagem”, diz.

Mesmo 30 anos após a primeira exibição, Sorrah ressalta que o público ainda se lembra de Heleninha, mas de outra forma. “Virou sinônimo de quando querem sair para beber e se divertir.”

Apesar de retratar um momento que continua atual no país –como o cenário de crise e desesperança–, a atriz acredita que o Brasil evolui em outros assuntos, como ao dar maior visibilidade para casais homossexuais na TV.

“Na época, páginas e páginas sobre o casal de lésbicas [Cecília e Laís, interpretadas pelas atrizes Lala Deheinzelin e Cristina Prochaska, respectivamente] eram censuradas. Isso não acontece mais e, felizmente, foi uma evolução.”

Na trama, Cecília morre em um acidente de carro. Segundo o autor Gilberto Braga, a morte já era prevista e não foi uma resposta à reação do público. A ideia era incentivar a discussão sobre o fato de Laís não ter direito à pousada que as duas construíram juntas, já que a união entre homossexuais não era legalizada no Brasil na época.

REPRISES SEMPRE DERAM AUDIÊNCIA

Em sua terceira reprise, “Vale Tudo” é transmitida em dois horários no canal Viva: das 15h30 às 16h20, quando fica em segundo lugar em audiência na TV paga; e da 0h30 à 1h20, quando alcança a liderança.

Em 2010, quando passou pela primeira vez no canal pago, a trama também era sucesso. “Vale Tudo” foi reprisada pela primeira vez na Globo, em 1992, no “Vale a Pena Ver de Novo”, à tarde.

Quando foi ao ar em 1988, conquistou um dos maiores índices de audiência da TV nacional, com média de 68 pontos e picos, no fim, de 86 _os números, que são atualizados ano a ano pelo Ibope, correspondem às estimativas populacionais da época.

O decorador e florista Roberto Rabello, 35 anos, lembra que era criança quando viu “Vale Tudo” pela primeira vez. “Tinha acabado de chegar a televisão na minha casa. Eu não tinha acesso a arte ou cultura, e a novela foi meu primeiro contato com esse meio.”

Para ele, o grande trunfo da trama é a identificação que o público tem com os personagens. “Quando vejo como a Odete Roitman [Beatriz Segall] trata mal os empregados e manipula a vida dos filhos, me dou conta de que conheço pessoas iguais. Ao mesmo tempo, a Raquel, vivida pela Regina Duarte, mostra o perfil do brasileiro guerreiro e honesto. Esse paradoxo dos personagens é incrível.”

Matéria: “Novela ‘Vale Tudo’ deixa canal Viva na liderança entre as TVs pagas”
Fonte: Karina Matias / Jornal Agora São Paulo / portal F5
Data: 17 de setembro de 2018
Link: https://f5.folha.uol.com.br/televisao/2018/09/novela-vale-tudo-deixa-canal-viva-na-lideranca-entre-as-tvs-pagas.shtml

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