É tão bom hoje ir ao teatro, não acham? Só que quando não estamos dispostos, ou por causa da preguiça, ou porque não temos dinheiro, ou por outra razão qualquer, o que nos resta é assistir a televisão. Assim como o cinema, a televisão também surgiu do teatro. E é sobre este que falaremos nesta edição. Pedimos que não conversem durante a coluna, desliguem seus celulares e mantenham-se em silêncio após a sirene e o apagar das luzes. Tenham uma boa peça, digo, ops…uma boa leitura!

Entre dálias e improvisos

Desde a sua primeira transmissão, a televisão brasileira se baseou exclusivamente em obras teatrais e rápidas enquetes. A primeira foi feita por Walter Foster, naquele mesmo dia 18 de setembro de 1950. Seriam considerados, nas primeiras décadas, o formato ideal de programa. A duração do programa se baseava na da própria peça, que, sem intervalos, chegaria a ter ou 30 minutos ou uma, duas, três horas de duração! Era algo que quebrava de vez qualquer grade de programação.

E como nos teatros, a TV inicialmente era ao vivo. Só que se compararmos a televisão com o teatro grego, ela também possuía seus pontos teatrais, aqueles que assopravam o texto quando o ator esquecia. A única diferença, é que para se assoprar um texto na televisão era preciso ser discreto ao máximo, não podendo os falar – o público poderia ouvir e iria ficar muito mal! Daí surgiram as dálias. O vaso de dálias era uma coisa constante nos programas, já que as dálias normalmente eram colocadas em um vaso grande. Atrás delas, na mesa mesmo, camuflados se escondiam os textos, “as colinhas” dos atores, que eram colocadas pelos contra-regras.

Certa vez, no início da Tupi carioca, o ator Fregolente, que não tinha boa memória, colocou seu texto preso a um vaso de dálias. O contra-regra desavisado trocou a toalha, que estava toda rabiscada, e junto levou a dália. Na hora H, quando Fregolente entrou em cena, desesperado por não ver as suas “dálias”, gritou em tom dramático:

“- Meu Deus do Céu, as minhas dálias! Onde estão as minhas dálias?” – a partir daí, dália tornou-se sinônimo de cola.

Hoje existem pontos-eletrônicos, que até nos telejornais, ajudam os âncoras e regerem seus programas, ou até mesmo, para darem puxões de orelha, chamando a atenção.

Os Grandes Teatros da Tupi

Leitores, vocês já viram que nos teatros, até hoje, se destinam às apresentações de companhias profissionais de terça a domingo? Segunda-feira sempre foi um dia destinado às companhias amadoras. E no início da televisão esta também era regra. A TV Tupi levava ao ar as companhias profissionais nos dias de folga destas – eram os teleteatros das segundas-feiras. E o teatro feito pelo “cast” da emissora era feito aos domingos.

Teatro Tupi O das segundas-feiras inicialmente recebeu o nome de “Grande Teatro das Segundas-Feiras”, no dia 21 de maio de 1951. E como, na televisão sempre há um patrocinador por trás, o Grande Teatro também seguiu as vontades do mesmo. Tornando-se Grande Teatro Monções, já que quem o bancava era a Construtora Imobiliária Monções (a mesma imobiliária que planejou e construiu o bairro de Monções, perto do Brooklin, que recebeu este nome justamente por causa da construtora).

E vários patrocinadores passaram pelo mesmo programa, que só deixava o nome “Grande Teatro” no início e alternava o resto. Popularmente – até mesmo por causa destas mudanças – o teatro começou a ser chamado de “Grande Teatro da TV Tupi”, ou “Grande Teatro da Tupi”. Baseado nesta designação popularesca e também em um período onde aboliram a idéia de mudar o nome dos programas a cada novo anunciante, a TV Tupi o trocou para “Grande Teatro Tupi”, que ficou no ar até a década de 60. Em 1970, Sérgio Britto quis retomar a idéia do Grande Teatro Tupi, mas não conseguiu. (à direita, Fernanda Montenegro e Sérgio Britto interpretam Hamlet no “Grande Teatro Tupi”. Arquivo Centro Cultural São Paulo).

O tema musical do Grande Teatro Tupi era “Smile”, de Charles Chaplin.

Entre os grandes nome do Grande Teatro Tupi enumero aqui alguns exemplos: Bibi Ferreira, Procópio Ferreira, Jaime Barcelos, Cleide Yáconis, Sérgio Britto, Cacilda Becker, Maria Fernanda, Maria Della Costa, Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi, Francisco Cuoco, Fernando Torres, Aldo de Maio, Zilka Salaberry, Nathália Timberg, entre outros.

Comédias e Tragédias

Como já havia falado, nos dias de domingo, os atores da Tupi faziam seus teatros. Uma semana era a TV de Comédia, na outra a TV de Vanguarda, que iam se alternando todos os fins de semana. Ambos nasceram como “teatros” (Teatro de Comédia e Teatro de Vanguarda) no ano de 1952.

O povo tinha o costume de chamar o TV de Vanguarda como “tv de tragédia”, já que a maioria das peças eram baseadas em dramas, muitos de origem latinas… Cubanas principalmente. Foram as bases para as novelas, que viam, neste mesmo estilo, desde a “Era do rádio”. A maioria que trabalhava neste era o elenco célebre das radionovelas, enquanto que na TV de Comédia era o elenco cômico da rádio se destacava. É desta época a diferenciação e a criação dos teleteatros humorísticos e teleteatros “comuns”. No TV de Vanguarda se destacaram atores como Lia de Aguiar, Yara LIns, Lima Duarte, Henrique Martins, José Parisi, Vida Alves, Márcia Real, Georgia Gomide, David Neto, autores como Walter George Durst e Túlio de Lemos, além de possuir nos primeiros anos a direção de Cassiano Gabus Mendes. Este programa é considerado um dos grandes pais da telenovela brasileira.A música de abertura do TV de Vanguarda era o tema do filme “E o Vento Levou” (Gone With the Wind), composta em 1939 por Max Steiner.

Diferentemente de “O Rancho Alegre”, de Mazaroppi, o TV de Comédia não se baseava somente em enquetes, mas também em uma trama com começo, meio e fim, que daria base aos programas humorísticos do estilo de Família Trapo (Record), Grande Família (Globo), Bronco (Bandeirantes), Tamanho Família (Manchete) e Sai de Baixo (Globo).

No final da década de 60 saiam do ar os dois também, tendo a televisão dominada pelas grandes telenovelas brasileiras. E o que ultimamente se pode ter de parecido com estes teleteatros nos últimos anos foram séries especiais da Terça Nobre (Globo), como “Comédias da Vida Privada” (com o TV de Comédia) e “O Alienista”, “O Mambembe”, “O Coronel e o Lobisomem” (TV de Vanguarda), tirando inspiração de grandes obras de nossa literatura e adaptando-as para a televisão.

E encerro a minha coluna desta semana, com uma frase curiosa de Procópio Ferreira, em 1962: “Mais vale uma televisão na mão do que dez teatros derrubados”.

Artigo publicado originalmente no portal Sampa On Line – coluna “Comunicação”, de Elmo Francfort, em 23 de março de 2001 – http://www.sampaonline.com.br/colunas/elmo/coluna2001mar23.htm

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