Entrevista de Elmo Francfort, autor do livro sobre a Rede Manchete ao site Observatório da Imprensa

Marcel Pazzin, Observatório da Imprensa, em 15 de abril de 2008 (reprodução Rede Manchete.Net)

Qual foi o tom empregado na concepção do livro? Há quem diga que livros históricos sobre emissoras de televisão são excessivamente saudosistas e pouco objetivos.

Elmo Francfort: Quis ser imparcial ao extremo. E tive surpresas no meio do caminho. O César Castanho, por exemplo, que era diretor da IBF, defendeu a administração de que fazia parte, mas ao mesmo tempo falou que havia respeito por parte da IBF a Adolpho Bloch. Eu sou a favor de livros que não sejam só saudosistas, porque temos que criar o registro histórico. Não quis também um livro criteriosamente analítico, sem emoção alguma. Tentei encontrar o meio tom. Um tom que tivesse o espírito da Manchete.

A TV Manchete obteve respeito sobretudo através da dramaturgia e do jornalismo. Como você avalia o legado deixado pela emissora?

E.F.: A Manchete fez escola. Muita gente boa passou por lá, outras começaram ali. No jornalismo, por exemplo, um grande time se formou: Mariana Godoy, Mylena Ciribelli, Ana Paula Padrão (que era da TV Brasília), Lorena Calábria e outros. Muitos despontaram na Manchete, como Alexandre Garcia, Luiz Carlos Azenha, Milton Neves, Luiz Gonzaga Mineiro, Carlos Amorim, Nelson Hoineff. Na teledramaturgia também aconteceu o mesmo: surgiram nomes como Giovanna Antonelli, Cristiana Oliveira, Paulo Gorgulho, Marcos Palmeira, Taís Araújo, Dalton Vigh, Murilo Rosa, Carla Regina, Jayme Monjardim.

A Manchete desenvolveu uma receita própria para chegar ao sucesso ou apoiou-se em mão-de-obra da TV Globo? O fato de ela ter sido sediada no Rio colaborou para o êxito?

E.F.: As duas coisas. A Manchete, no início, tinha como objetivo formar um novo time de profissionais. Existia até um curso de telejornalismo oferecido pela emissora. A Manchete fez o que a Record hoje faz. Ela tentou ao máximo colocar artistas e profissionais da Globo, bem reconhecidos pelo público, porque assim os telespectadores reconheceriam a Manchete como uma segunda opção de qualidade na TV. Era uma questão de estratégia.

Muitas novelas, programas e arquivos ainda estão deteriorando nas antigas instalações da rede no Rio. Existe alguma esperança de restauração e reexibição destas obras?

E.F.: Anterior a 1994, só o que for recuperado pelo caminho, como as fitas que foram para a TV Cultura e que hoje são vistas em matérias do Grandes Momentos do Esporte. O resto, infelizmente, nós só veremos no dia que uma instituição cultural negociar com os titulares dos direitos das fitas. É uma lástima acontecer com a Manchete o que aconteceu com o arquivo da Tupi, onde maioria se perdeu com o tempo e com os fungos.

As crises pelas quais a emissora passou foram resultado de uma má gestão de Adolpho Bloch, a exemplo do que acontece hoje com o SBT?

E.F. : Foram diversos fatores. Não podemos dizer que seja exclusivamente culpa de Adolpho Bloch. Ao mesmo tempo em que alguns fatores o culpam, outros o defendem e o elegem como principal defensor dos funcionários da Manchete. São muitos detalhes. Fiz questão de deixar para o leitor julgar. Meu objetivo foi mostrar os dois lados.

E como avalia a RedeTV! como sucessora?

E.F. : É uma outra empresa, uma outra filosofia. Se tivessem perfis próximos, poderia avaliar e comparar. No início a RedeTV! era parecida e infelizmente pecou por não olhar para trás. Ela começou com um perfil classe A, o mesmo que no início a Manchete tinha ? o perfil que fez com que a Manchete se acidentasse, não tendo tanto faturamento no início. Eles demoraram uma década praticamente para se acharem. Talvez a RedeTV! caminhe para isso, para encontrar seu nicho. A Manchete tinha uma grife, ela era querida do público. A RedeTV! tem um público, mas ainda não é vista como uma possível favorita. Atualmente a RedeTV! a única emissora com programação 100% HDTV. Eu torço para que ela com isso dê o primeiro passo no reconhecimento do público. Uma vez tendo uma emissora reconhecida é o ponto de partida para desenvolver seu perfil e conseguir seu lugar ao Sol.

Há quem diga que a marca TV Manchete pode ser reutilizada. Hoje, ela pertence à TV Pampa de Porto Alegre.

E.F.: Toda marca tem uma história e carrega em si um nome, uma tradição, fatores e estereótipos. Só que não é fácil. Mais difícil do que voltar a TV Tupi é voltar com o nome Manchete. Principalmente porque ainda está muito viva, presente na memória dos profissionais que hoje têm o poder de decisão, que movimentam o mercado. Voltar com a Manchete sem ter uma qualidade em todos os sentidos, desde conteúdo à qualidade gráfica é dar um tiro no pé. Ela ainda é uma grife. Para voltar com a Manchete é necessário ser Manchete filosoficamente. O Marcos Dvoskin, atual dono da revista Manchete, disse em entrevista para o livro sobre o cuidado que tem com a volta periódica da revista. Ele acha que tem mercado, mas que é necessário oferecer um produto de qualidade sempre, sem decair. Mas para oferecer é necessário dinheiro por dois lados: aplicação e faturamento. Precisa aplicar de início, investir, buscando um faturamento futuro. Precisa de um prejuízo que será pago com um lucro. Para os gaúchos, a marca TV Manchete na Pampa pode até ter uma boa aceitação, já que ela foi por muito tempo afiliada da Rede Manchete. Aliás, a primeira afiliada, em 1983. Só que acredito que os Gadret [controladores da Rede Pampa] têm consciência disso, pela experiência que têm com a Rede Pampa há décadas. Fica a pergunta de onde eles pretendem chegar, se ser a TV Pampa com outro nome ou criar uma nova rede fora do eixo Rio-São Paulo.

Link para matéria: http://redemanchete.net/artigos/artigo.asp?id=294&t=Entrevista-de-Elmo-Francfort,-autor-do-livro-sobre-a-Rede-Manchete-ao-site-Observatorio-da-Imprensa

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