Depois de “inaugurarmos a TV Tupi”, na minha última coluna, agora é hora de discutir uma dúvida que ficou através dos tempos e que poucas pessoas fizeram uma comparação para tentar explicá-la: “quem foi o primeiro rosto da TV brasileira?” Primeiramente, conforme o que eu já disse, seria Yara Lins. Mas há controvérsias…Ou melhor, há mais de uma, mas sim mais três versões sobre o mesmo fato. E aqui, vocês, leitores, depois de terem analisado a apresentação de Yara Lins (na versão que está presente na maioria dos livros de comunicação), agora serão o júri para decidirão qual é a versão oficial do fato.

O homem da voz aveludada

Conforme a versão de Fernando Moraes, em Chatô – O Rei do Brasil: Cassiano Gabus Mendes deu o sinal, após a ordem de seu colega Demerval Costa Lima e a gravação começou:

” – Está no ar a PRF-3 TV Tupi de São Paulo, a primeira emissora de televisão da América Latina”. – Walter Foster, com sua famosa voz aveludada reabria a televisão PRF-3 TV Tupy-Difusora, mas agora, em caráter oficial. Isto, na (re)abertura da TV no prédio dos Associados, na Rua 7 de Abril. Antes, em 3 de abril de 1950, sob as músicas do Frei José de Guadalupe Mojica, Walter Foster também esteve a inaugurar a televisão. Mas não dá para entender o que foi que aconteceu nesta abertura oficial, do dia 18 de setembro daquele ano.

Veja do ponto de vista do significado da pessoa Walter Foster no meio dos Associados. Por quê Yara Lins seria o primeiro rosto então? Pois Forster era locutor oficial da Rádio Tupi, um símbolo quase da famosa PRG-2. Este, que além de ator, foi diretor da rádio e chegou por muitas vezes a servir de símbolo de todas Emissoras Associadas, quando estas faziam um “pool” radiofônico, ligando-as em rede. No mesmo posto que eles só uma pessoa podia também se elevar: Homero Silva, que também fazia programas e locuções em nomes das rádios e das demais Emissoras Associadas. Este, que logo abaixo, falaremos um pouco mais. Mas voltando ao assunto, como Walter e Homero, Aurélio Campos (que depois chegou a fazer O Céu É O Limite, no lugar de J. Silvestre), César Monteclaro e Jorge Amaral (no campo esportivo) eram os únicos que foram os grandes locutores dos Associados, da mesma forma que Blota Júnior era sinônimo de TV Record.

Entenderam a importância de Walter Forster neste contexto? Este, que com toda essa bagagem e peso na profissão, fora escolhido para dar até o primeiro beijo televisionado do Brasil, em Vida Alves, no ano de 1951, no meio da novela “Sua Vida Me Pertence”, que será assunto para outro dia. É bom lembrar que “Walter Gerhard Forster” não poderá se defender neste julgamento, já que, infelizmente, em 3 de setembro de 1996 morreu. Já aquela mesma Vida Alves, no enterro de Cassiano Gabus Mendes, teve a idéia de fundar a APPITE ( Associação dos Pioneiros Profissionais e Incentivadores da Televisão Brasileira, atual Pró-TV), cuja presidente é a própria. A APPITE, que só foi fundada em 1995 e que veio a fazer grandes celebrações no ano do cinquentenário da TV brasileira: 2000. Mas voltando ao caso, por quê não seria Walter Forster o primeiro rosto da TV brasileira?

A indiazinha do ‘Cacique’

” – Boa noite, está no ar a televisão do Brasil.” – A menina Sônia Maria Dorce, de apenas 5 anos, abria a PRF-3 TV Tupy em 18 de setembro de 1950. Esta, uma menininha famosa na Rádio Tupi, aquela que declamava poemas e fazia brincadeiras, até mesmo anedotas ao lado do apresentador Homero Silva, no Club Papai Noel e Club do Guri, desde 1948. Homero Silva, este que temos certeza que em qualquer versão foi o locutor oficial da abertura da televisão, fazendo a narração e o andamento do evento, mas que não temos indício nenhum de ter sido o primeiro rosto, iria certamente ter ao lado a sua pequena colega da rádio.

Na versão da própria Sônia, dada ao Estadão em 2 de dezembro de 2000, ela citou o pai, Francisco Dorce, que era diretor musical, maestro e pianista da Rádio Tupi e muito amigo dos “Cacique dos Associados”, do “Velho Capitão”: Assis Chateaubriand. E foi esta amizade que rendeu à filha de Francisco, esta abertura da inauguração. Isto, porque Francisco Dorce foi um dos que acompanhou Chateaubriand aos Estados Unidos para comprar os equipamentos e realizar a maluca idéia de se fazer a quarta emissora do mundo! A ponto de que um dos televisores, que vieram junto com os equipamentos, chegasse a ser colocado na casa de Sônia, como presente de Chatô.

E naquela noite de setembro, Chateaubriand pegou a menina no estúdio, preparou-a para a apresentação, arrumando sua roupa e de última hora, inventou uma louca ideia de colocar um cocar de índio na cabeça de Dorce, para que ela ficasse uma indiazinha, como o símbolo da emissora, o Tupi. Empurrou-a para frente dos refletores e ela, dizendo aquela pequena frase bem decorada, inaugurou a TV brasileira, após a abertura com o test-patern da Tupi ir ao ar, sob uma pequena fanfarra composta por Villa-Lobos, cujo nome foi perdida através dos tempos, lamentavelmente, mas que na cabeça de muitos telespectadores pioneiros e principalmente na daquela equipe ficou guardada até os dias atuais.

E Dorce depois, no segundo dia, já estrelava Gurilândia, a versão televisionada do Club Papai Noel, onde declamava poemas enormes e bem decorados, sem saber ler! Foi assim que teve sua grande carreira, sendo sempre a filha das primeiras novelas da Tupi, além de fazer comerciais e muito mais. Toda essa fama até seus 20 anos. De lá pra cá, se formou em Direito e hoje é uma juiza conceituada no campo paulista, sendo até assessora jurídica na Secretaria da Cultura. Mas isto não se deve a fama da menina da televisão, mas ao empenho e a garra da grande advogada que ela se tornou. Hoje, possui 52 anos de vida e um passado invejável, desta, que pode ter sido o primeiro rosto da TV. “E por quê não?

O eterno apresentador

Ops… Mais um apareceu no meio da história, alguém que já chutei a bola para os leitores logo acima. É, ele mesmo, Homero Silva, aquele que também era marca das Emissoras Associadas e comandante dos programas infantis da Rádio Tupi, junto com a pequena Dorce. Esta versão, por sua vez, não é em 18 de setembro de 1950, mais sim cinco meses antes, em 18 de abril. Conforme a descrição do escritor Glauco Carneiro, no livro “Brasil, Primeiro – A História dos Diários Associados” – encomendado pela própria instituição, naquele dia de abril, a PRF-3 TV Tupy-Difusora entrava no ar, tendo Homero Silva apresentando os estúdios, dando uma descrição de tudo que lá existia e logo após, mostrava o Bispo auxiliar de São Paulo, Dom Paulo Rolim Loureiro abençoando os estúdios da emissora, que desta vez não eram no Sumaré, mas sim na Rua 7 de abril, 230, bem no centro da cidade, onde ficava a redação de todos os Diários Associados de São Paulo. Agora, me expliquem, Homero Silva não tem cara de ter sido também o primeiro rosto da TV?

E agora, você decide

Agora já apresentamos as outras três versões do fato. E o que vocês acham? Agora, vocês decidem. Em qualquer versão, os quatros sempre estiveram presentes…Então qual seria? Yara Lins, Sônia Maria Dorce, Walter Forster ou Homero Silva? A mocinha, a menina, o galã ou o apresentador? Qual foi o primeiro rosto da televisão?

Que tal alguém me mandar um e-mail, dizendo a sua opinião sobre este curioso fato? É hora de interagirem com a coluna. Porque aqui você “assiste”, mas você também opina. Estou esperando a conclusão de vocês.

O primeiro rosto humano foi um dos três, porém, o primeiro rosto animado e não-humano foi o do nosso querido test-patern, o pequeno tupizinho da emissora…Esta é única certeza que temos…

Artigo publicado originalmente no portal Sampa On Line – coluna “Comunicação”, de Elmo Francfort, em 16 de fevereiro de 2001 – http://www.sampaonline.com.br/colunas/elmo/coluna2001fev16.htm

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