Para quem nasceu de 1966 para cá, com certeza não deve ter conhecido nada sobre a Rádio e Televisão Paulista S/A, canal 5 de São Paulo. Devem apenas saber, da mesma forma que eu, por meio das lembranças de parentes saudosos da programação desse canal (à direita, a atriz Jane Batista e um produtor abrindo a festa de 1 ano da TV Paulista, 1953. Arquivo CCSP).

A TV Paulista, fundada em 1952, foi a segunda emissora de televisão de São Paulo e terceira do Brasil. Um pioneirismo que originou dezenas de sucessos nos primeiros anos, à ponto de desafiar friamente a sua maior concorrente: a TV Tupi. Esta, que permaneceu no ar até 1966, quando foi comprada pelo Sistema Globo de Rádio e Televisão… O nosso famoso “plim-plim” que até hoje impera na audiência, além de ter sido a responsável pela falência da pioneira Tupi. A ascensão da Globo e seu poderio, capaz de desafiar os demais canais, talvez tenha sido o sonho que o dia a TV Paulista imaginou realizar, mas não conseguiu.

Nos primeiros anos ela era mais uma televisão utilizada para fazer propaganda política de seu proprietário, o Deputado Ortiz Monteiro. Mais tarde, foi comprada pelas Organizações Victor Costa, propriedade do mesmo, que era dono das rádios Nacional (de São Paulo – atual Rádio Globo – e a do Rio de Janeiro, que continua sendo Nacional), da Rádio Excelsior (atual CBN) e de outras emissoras de rádio e televisão pelo interior do país. É bom lembrar que tanto Victor Costa, como Ortiz Monteiro, foram inicialmente donos do sinal 9, que seria instalado a TV Excelsior – pouco depois de dado a concessão, o grupo de empresários proprietários do 9 o venderam para os riquíssimos cafeicultores santistas, integrantes da família Simonsen. Mas, voltando à Paulista, a emissora entrou em crise em 1960, quando Costa morreu e os filhos não souberam administrar a emissora.

O Exército Brancaleone

Na história da televisão brasileira e nem sei se da mundial também, a TV Paulista deve ser tida como dona de um récorde que outras emissoras jamais poderiam ter. O canal 5 era dotado de muito profissionalismo e imaginação, mesmo que não possuísse as grandes instalações de uma emissora, como no caso da TV Tupi e da TV Record. Mesmo assim, os antigos profissionais da Paulista até hoje têm razão de chamar o “cast” da emissora de “Exército Brancaleone”. Porque a história deste filme homônimo é a de um exército que vencia batalhas usando a criatividade, mesmo sendo pequeno, e derrotando tropas gigantescas. É um enredo que também pertencia à TV Paulista, como já expliquei.

Antes de ir para a Rua das Palmeiras, no bairro de Santa Cecília, a Paulista ficava situada no pequeno e ainda existente Edifício Liége, na Rua da Consolação, quase em frente à Avenida Paulista. Seu equipamento era modesto perto dos da Tupi também. E o espaço destinado para televisão dentro daquele predinho era algo minúsculo. Veja alguns detalhes das instalações da Paulista:

– Tamanho dos quartos: 3 x 4m.

– Estúdios: improvisados no térreo, onde era uma garagem e um espaço para uma loja.

– Projeção de filmes: em um dos quartos, cuja projeção era na parede e lá focalizavam sua câmera, já gravando.

– Laboratório de revelação: hospedado numa pequena cozinha ao lado do quarto da projeção.

– Redação Jornalística: situada na sala deste apartamento do quarto andar, ali eram organizadas as pautas dos programas, entre eles o telejornal da emissora, que era feito por Roberto Corte Real e apresentado e produzido por Mário Mansur.

Mesmo com este tamanho, ela possuía recursos técnicos que jamais a emissora líder da época, a Tupi, conseguiu superar. A TV Paulista tinha até sua unidade móvel! Era um “ônibus” de externas, que possuía o nome de telecruiser, um GM norte americano, igual aos ônibus de Nova York – este era o grande orgulho do canal 5.

O funcionamento da projeção

Como já contei na última semana, Luiz Francfort havia começado sua carreira na televisão neste mesmo canal 5. E conforme suas explicações sobre seu trabalho na Paulista, por quase dois anos nesta emissora, cuidava da projeção de slides e filmes. Estes slides eram projetados num “armário” de aço, denominado Scanner que trocava as fotos (ou letreiros, que existiam nessas fotos), automaticamente, ao toque de um botão, se empilhados na posição correta e numa seqüência pré-estabelecida. E como já disse: filmes, eram projetados numa parede e focalizados direto pela câmera.Tempo depois, fizeram uma janela na parede, com uma tela translúcida e a câmera televisionava da outra sala as imagens (é óbvio que o filme era projetado invertido, para que a câmera o visse certo do outro lado – devido as leis da física!).

Confusões no primeiro dia

Era 1953. Luiz havia sido encarregado, inicialmente, de cuidar do tal de Scanner. E no seu primeiro dia, devido a sua inexperiência e também ao nervosismo, Luiz atrasou a programação ao vivo (um teleteatro). O programa estava para ir ao ar e não chegavam os slides com os nomes dos atores, técnicos, diretores, etc. (os “créditos” como chamamos até hoje!).

Enquanto isto, no andar superior, estavam ainda sendo montados estes slides nas molduras de alumínio. Na hora H, pra começar o teatro, um rapaz trouxe à Francfort uma pilha enorme de slides (supostamente já na ordem prevista pra ir ao ar) apoiados na palma de uma das mãos e com um dedo da outra mão firmando-os no topo.

Já estavam com pressa! Não poderiam atrasar mais a programação. Na corrida para entregá-los, ou devido ao estado de Luiz, que já estava na beira de um ataque de nervos, este foi tentar segurá-los e todos os slides voaram para todos os lados! Na mão de Luiz só restavam o primeiro e último slide da pilha…O restante estava espalhado pelo chão da sala toda.

E o nervosismo daquele menino estreante o fez entrar em parafuso, numa repentina paralisação cerebral: o que fazer?

No ar, lá estava a TV Paulista exibindo uma tela escurecida, programação parada, slides para catar pra todo o lado, e….a ordem de exibição perdida!

O nervosismo tomou conta da televisão… O diretor do teleteatro, Antonino Seabra, gritava em desespero; os operadores, técnicos e até o engenheiro Paulo Bastos recolhiam os slides, a única providência que poderiam tomar naquele momento tenso.

O pior estava por vir… Um técnico, Ariosto Rodrigues, viu um slide sob o scanner e apontou-o com o dedo. Uma faísca azul, saltou dos intestinos do scanner e fechou um arco voltáico com o dedo do Ariosto que deu um pulo pra traz e sentou no chão!

Resolução do caso: em ordem aleatória mesmo, sem nexo nenhum, o grandioso número de slides foram para o ar. E pior do que isso só o detalhe de que estavam sendo exibidos de cabeça para baixo!

Imaginem a angústia de Luiz Francfort sabendo que tudo havia sido provocado por causa do nervosismo. Até hoje Luiz não entendeu porque não foi mandado embora na primeira noite… Talvez os profissionais da Paulista tenham entendido que ali entrava os “ossos do ofício” em Luiz. Uma coisa, que na televisão atual seria difícil de perdoar, mas como ainda era algo novo a TV no Brasil, ao vivo e com poucos especialistas, era bem mais fácil de o perdoarem.

Efeitos especiais do canal 5

Nesta mesma a TV Paulista exibia uma peça teatral que requeria, no script, uma explosão.

O cenógrafo da época disse para todos ficarem despreocupados, porque conhecia uma técnica especial que simulava, com pólvora, uma explosão real, sem causar danos ao edifício ou queimaduras. Realmente, quando chegou o momento, ao vivo, a “explosão” foi um sucesso de efeitos especiais!

Começou com um estrondo característico, o clarão forte e a bola de fumaça! Uns poucos segundos de expectativa, e o alívio final! O prédio não foi abalado, ninguém havia se machucado, nenhum equipamento danificado. Só que neste momento, todos se deram conta de um problema: como continuar o programa? O estúdio era só fumaça, os atores tossiam e as câmeras não mostravam nada além de uma neblina de fazer inveja a Londres! Resultado: colocaram o slide do “mundinho” (o logotipo da TV Paulista) no ar. Os atores foram para calçada rapidamente e todas as portas do estúdio foram abertas. E todos os profissionais da Paulista ficavam abanando por vários e intermináveis minutos.

Um fato curioso, que já mencionamos, é o detalhe da emissora possuir um globo terrestre como símbolo na época. O que é mais impressionante de tudo isto é que nem imaginavam que um dia chegariam a ser a Globo. E “mundinho” foi o apelido que os profissionais da Paulista deram àquele logotipo.

Heranças atuais da TV Paulista

Os programas eram todos patrocinados e recebiam o nome do seu patrocinador, como o caso do Teledrama “Três Leões”. Mas havia outros que recebiam o nome do apresentador ou da função que o programa exerceria.

Exemplo disto, era o Teleteatro Cacilda Becker, que era apresentado pela própria. Esta, que um dia não imaginaria que seu nome, ou o nome do programa, seria eleito para dar nome a um dos famosos teatros de São Paulo, o Teatro Cacilda Becker.

CorujãoFalando das heranças deixadas à Globo, ali nasceu a Seção Coruja e o Corujão, que seria exibido mais para o meio da madrugada. O último que até hoje é exibido pelo canal 5 de São Paulo. A Seção Coruja foi, no caso, trocada por exibições de filmes como Super Cine, Tela Quente ou como a mais moderna atração do horário, o InterCine (à direita, logotipo do Corujão (da Rede Globo, que começou na TV Paulista). Divulgação / Rede Globo – 2000.).

Agora pensando no “novíssimo” SBT : algumas de suas bases foi do canal 5 que saiu. Porque foi na Paulista que nasceu o profissional de televisão Silvio Santos, que inicialmente atuava na “Praça da Alegria” com seu “padrinho” Manoel da Nóbrega, que também inaugurou ali este programa humorístico, que hoje é guiado pelo filho Carlos Alberto com o nome de “A Praça É Nossa”. Depois, Silvio começou a fazer na Paulista mesmo programa de jogos, iniciando este gênero com o “Vamos Brincar de Forca?”. Foi também na TV Paulista que Hebe Camargo começou a desenvolver um gênero de apresentadora e entrevistadora ao mesmo tempo, iniciado no programa “O Mundo É das Mulheres”, apresentado por 5 mulheres (entre elas Hebe, Vida Alves, Wilma Bentivegna, entre outras) sob comando do apresentador Walter Foster. É famosa na história da TV brasileira a debandada de atores da TV Tupi para a TV Paulista, depois de um convite tentador de Victor Costa, que prometia um sucesso garantido como o de suas rádios e ao mesmo tempo um bom salário.

Silvio Santos e outros programas continuaram na TV Paulista, mesmo depois dela se torna Globo. É importante lembrar, que mesmo sendo de propriedade da Globo, a TV Paulista até 1968 teve este nome. Em 1968, devido o incêndio em suas instalações na Rua das Palmeiras, as Organizações Globo resolveram centralizar suas produções somente no Rio finalmente e como havia sido queimada parte integrante da história da Paulista também, resolveram começar do zero e tiraram o nome da emissora, colocando Globo também, como já era o canal 4 do Rio de Janeiro. Foi só depois desta época que os estúdios de São Paulo começaram a ser transferidos todos para o prédio da Globo na Praça Marechal Hermes. Sabiam disto? Sobre este incêndio um dia contarei mais, com fotos.

Uma homenagem aos brancaleonistas

Luiz até hoje recorda, com saudade, daquela modesta, mas simpática, TV Paulista, onde fez grandes amizades e aprendeu muito sobre sua profissão de radialista. Como já dissemos, ali conheceu Antonino Seabra, que foi seu maior (e mais paciente) mestre. Este, que ensinou tudo de TV, artistica e operacionalmente, até em detalhes, como desmontar e montar uma câmera numa externa. Lembra-se do Dr. Plínio, diretor técnico que deu a ele a chance desse primeiro emprego. Trabalhou com o Roberto Corte Real, excelente profissional e irmão do humorista Renato Corte Real. Conheceu ali o técnico José Gomes Henriques, companheiro de serviços até no exterior (hoje responsável pela rede do interior do SBT), viu nascer ali o profissional Sílvio Luiz, um menino que depois de ter iniciado a carreira como ator de teleteatros da Paulista, estreava como repórter de campo. Há tantos outros, que um dia ainda irei mencioná-los, porque merecem uma devida homenagem todos estes pioneiros da televisão brasileira, que lutaram para termos a TV que hoje possuímos.

Artigo publicado originalmente no portal Sampa On Line – coluna “Comunicação”, de Elmo Francfort, em 09 de março de 2001 – http://www.sampaonline.com.br/colunas/elmo/coluna2001mar09.htm

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