Depois de falarmos sobre o que existiu antes da televisão, é hora de irmos ao nascimento deste meio no Brasil. Vamos assistir a mais um programa deste nosso túnel do tempo…

Era quase dez horas da noite, o dia era 18 de setembro de 1950. Ali, bem a frente daquela câmera PK-30 estava uma “radioatriz” prestes a mudar seu cargo, sem nem ao menos imaginar o que aquela câmera quadrada iria interferir na sua vida. Sorrindo, com os cabelos até os ombros, lá estava aquela mocinha de 20 anos, cujo nome era Yara Lins. Esperaram o índio test-patern da Tupi aparecer e dar a sua famosa piscadela. Aí, Cassiano Gabus Mendes, diretor artístico da tal “tv”, deu o sinal e Yara começou a falar, com o texto todo decorado (à direita, test-patern original da TV Tupi, 1950. Arquivo Associados / Fundação Assis Chateaubriand (DF).

O iniciou dando os prefixos de todas as rádios dos Diários e Emissoras Associadas do Brasil! As do Rio de Janeiro, de São Paulo, do nordeste, de Minas Gerais, do Sul…de todas! Ela mesmo não sabia como decorou todos esses prefixos, sendo que um erro qualquer seria fatal! Os três últimos seriam “PRF-3 Rádio Difusora, São Paulo; PRG-2 Rádio Tupi, São Paulo e PRF-3 TV, São Paulo”. Como entender uma televisão no meio dos prefixos de rádio? Mas, para piorar, Yara Lins não parou só nos prefixos, continuando:

” – Senhoras e senhores telespectadores, boa-noite; a PRF 3 TV – Emissora Associada de São Paulo orgulhosamente apresenta, neste momento, o primeiro programa de televisão da América Latina”. – Depois de toda esta fala, Yara Lins estava condenada a atuar na maiorias das televisões e em quase 40 novelas, sendo que as últimas foram “Ossos do Barão”(1997, SBT) e agora, a mais atual, “Laços de Família” (2000,Globo) ao fazer o papel de mãe de Tony Ramos.

Este programa inaugural foi chamado de “TV na Taba”. Depois de Yara Lins, Lolita Rodrigues cantou o “Hino da Televisão”, cuja letra é de Guilherme de Almeida e a música de Marcelo Tupinambá. Leia abaixo a letra deste hino:

“Hino da Televisão (1950)

“Vingou como tudo vinga
No teu chão Piratininga,
A cruz que Anchieta plantou.

Pois dir-se-á que ela hoje acena
Por uma altíssima antena
A cruz que Anchieta plantou.

E te dá num amuleto
O vermelho, branco e preto
Das pernas do seu cocar.

E te mostra num espelho
O preto, branco e vermelho
Das contas do teu colar.”

Depois a atriz Wilma Bentivegna cantou algumas músicas.O humorista Mazzaropi fez uma comédia, com o seu tipo caipira clássico, ali nascia o programa “O Rancho Alegre”. Chamaram o locutor Aurélio Campos para demonstrar como seria feito as transmissões esportivas pela televisão, utilizando como base um tabuleiro de futebol de botão.

E Hebe Camargo já estava lá! Fazendo um dueto com Ivon Cury, gravado em filme, o musical que a trazia com cabelos negros e as sombrancelhas grossas, uma marca que com o tempo ela quis apagar de sua imagem e as afinou. No cenário, cantavam os dois, sendo que ela estava num balanço de parquinho infantil. Este é um dos únicos registros que restaram da época que não existia o videoteipe, o antecessor do video-cassete.

E quem diria, Lima Duarte e Walter Foster também estavam neste espetáculo, explicando que o teatro também chegaria à tevê. E nesta primeira exibição, dois índios se destacaram: Sônia Maria Dorce, a “Shirley Temple brasileira” – a menina que fazia par com o locutor Homero Silva (que foi locutor, de ponta a ponta deste espetáculo do dia 18) no Club do Papai Noel e Clube do Guri nas Rádios Tupi e Difusora – e o outro, o atual diretor da novela “O Cravo e A Rosa”(Globo), Walter Avancini, que possúía 14 anos e usava apenas penas, cocar e uma tanguinha, ambos simbolizavam indiozinhos tupis. Este povo indígena que era a fascinação do pai da televisão brasileira e sócio-fundador e majoritário dos Associados, Assis Chateubriand.

Por trás das câmeras, Walter Tasca, gravava tudo. A outra câmera – que quebrou ainda num ensaio que fizeram à tarde, planejando que a TV estreiaria às 20 horas – estava parada, sem função, deixando o câmera Éllio Tozzi encostado. O outro diretor artístico, além de Cassiano Gabus Mendes, era Fernando Costa Lima, estava lá, ao lado dos técnicos Waldemar Lejac e Luiz Gallon. Os Associados estavam presentes, o governador de São Paulo, o prefeito e todas as grandes autoridades da cidade, até mesmo bispos e padres estavam entre os convidados. Um grande espetáculo que inauguraria a nossa querida televisão.

Mas por quê ‘PRF-3 TV Tupi-Difusora’ ?

Foi assim que nasceu a PRF-3 TV. Uma televisão sem um nome definido no início, mas que mais tarde foi batizada de PRF-3 TV Tupi-Difusora, situada no bairro do Sumaré. Onde hoje, na Rua Alfonso Bovero, se localizam os transmissores do SBT, na esquina com a R. Piracicaba. Ali se encontrava o grandioso casarão, chamado de “Palácio do Rádio”, onde se localizava os estúdios da PRG-2 Rádio Tupi – AM, que para sua época eram enormes, comparados aos das demais rádios.

O majestoso edifício sede da Rede Tupi, inaugurado em 1960, é hoje propriedade das Empresas Abril, onde se instalou a MTV Brasil, em 1990. Ali se encontrava antes muitas casas e entre elas uma que funcionava a PRF-3 Rádio Difusora.

E por ambas as rádios ficarem na mesma R. Alfonso Bovero e serem colegas nos Associados, uniram os ideais para criar a televisão, além dos empregados, atores e técnicos das rádios, transformados nos primeiros profissionais da TV brasileira. E por esta proximidade explicamos o por quê do nome de PRF-3 TV Tupi-Difusora… PRF-3 e Difusora porque o primeiro era prefixo da segundo e Tupi, por serem os estúdios dentro do “Palácio do Rádio”. E o 3 no nome também teria a ver com a televisão, já que inicialmente ela seria o canal 3 de São Paulo, só tempos depois, canal 4, que hoje é o SBT.

Mas vocês não têm a dúvida do por quê de não ter sido PRG-2 TV Tupi-Difusora? A verdade é que o projeto de fundarem a TV Tupi carioca já estava pronto e esta sim receberia o rádio da primeira rádio Tupi do Brasil, a PRG-3 do Rio de Janeiro, qie na época era capital do Brasil. Por isto, a Tupi-Rio, fundada em 1951, teria o nome PRG-3 TV Tupi, canal 6.

Mais para frente, falarei sobre o Sumaré e as instalações da TV Tupi, porque aqui é só o começo. O começo mesmo. Temos cinqüenta anos para assistir, reprisando os melhores momentos, neste nosso “vale a pena ver de novo”…

Artigo publicado originalmente no portal Sampa On Line – coluna “Comunicação”, de Elmo Francfort, em 09 de fevereiro de 2001 – http://www.sampaonline.com.br/colunas/elmo/coluna2001fev09.htm

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